Rafael Arruda

No primeiro texto do Futebol de Várzea, ressaltei a criação de um espaço virtual com intuito de divulgar a parte amadora do esporte. Esta regra, porém, será quebrada neste texto. Do mesmo modo que resumi a história de Wellington Cabeção, um dos melhores camisas 10 do meu tempo de infância, conto nesta postagem a história de um conterrâneo de Igarapé/MG no mundo da bola. Graciano Junior Gonçalves – também conhecido como Graxa, Graxinha ou Rincón – conseguiu atravessar a estreita passagem rumo à vida profissional no futebol e agora corre contra o tempo para se consolidar no cenário nacional.

Antes de detalhar a carreira de Graxinha, que começou nas categorias de base do Atlético, profissionalizou-se no Náutico e defendeu clubes como Bragantino, União Barbarense e CRAC-GO, puxo pela minha memória o ano de 2002, quando meu tio Luiz Eduardo tocava – do jeito que dava – sua escolinha sem fins lucrativos no campo de terra do Bairro Novo Horizonte, em Igarapé, cidade localizada a 47 quilômetros de Belo Horizonte. Numa quarta-feira à tarde (não me recordo a data numérica), a senhorita Rita de Cássia chegou com seu filho de 8 anos para treinar com a equipe. Eu, um ano mais velho, fui receptivo ao puxar assunto: “Você joga de quê?”. O garoto respondeu: “Zagueiro”. Fiquei pensando: será que um menino tão pequeno assim vai dar conta? Quando começou o treino, Graciano roubou a bola de um atacante do time adversário, driblou outro e tocou a bola para mim. Durante toda a atividade, ninguém foi capaz de ganhar uma jogada sequer daquele molecote franzino e esguio. No terrão do “Novô” surgia um grande talento.

Não demorou muito para que Luiz Eduardo, profundo conhecedor de futebol, enxergasse Graciano como jogador de meio-campo. Seria um desperdício de habilidade e categoria deixá-lo na zaga. De quebra, o menino passou a ser Graxinha, apelido alusivo ao do pai, José Graciano Gonçalves, chamado de “Graxa” nos campos de várzea da cidade. Porém, ao mesmo tempo em que se mostrava rápido na saída de bola e às vezes até marcava uns gols, Graxinha era um tanto quanto destemperado com os adversários. Por vezes, o jogador recebia cartões amarelos e vermelhos em lances desnecessários. Disciplinador, Luiz Eduardo chamava atenção e dava “puxões de orelha”. Para o bem, obviamente.

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Entre 2004 e 2009, o então garoto apelidado de “Rincón” vestiu a camisa do Atlético. Na imagem, Graxa está ladeado pelo ex-jogador Paulo Isidoro e pelo pai, José Graciano

Ah se não fossem as broncas do Luiz. Mais calmo, Graxinha foi aprovado em um teste no Atlético junto de quatro colegas de Igarapé: Matheus (goleiro), Tuti (lateral-esquerdo/meia), Ademir (volante) e Paulo Henrique (atacante). Era o início da montagem do elenco mirim, entre 2004 e 2005. Nascidos em 1992 e 1993, alguns dos meninos que faziam parte dessa equipe alcançaram certo sucesso, casos do lateral-esquerdo Eron (na época atuava como atacante), atualmente no Bragantino; o zagueiro Sidimar, do Tupi; o meia Fred e o atacante Bernard, ambos no Shakhtar Donetsk, da Ucrânia. Dos igarapeenses, apenas Graxinha se manteve por mais tempo no Galo, onde ganhou o apelido de Rincón e permaneceu até 2009.

Não basta apenas ser bom de bola para caminhar rumo ao estrelato. Sorte e Q.I (o famoso “quem indica”) também são fundamentais. Graxinha saiu do Atlético em 2009 e perambulou por times de Betim que, sem muitas perspectivas, disputavam competições da Federação Mineira de Futebol (FMF). O sonho estaria perto de ruir? Tudo indicava que sim. Eis que apareceu uma luz no fim do túnel chamada Welington Cabeção. Ou Farol, para os amigos de São José dos Campos. Como havia redigido no início do relato, tive a honra de falar desse cara, craque dentro de campo e grande ser humano fora das quatro linhas. Prestigiado na equipe do São José, que disputava a Série A2 do Campeonato Paulista, Welington, já com contrato profissional, conseguiu um período de experiência para Graxinha na equipe. Deu certo. Em pouco tempo, o ágil volante que vi de perto em Igarapé vestia a número 5 do sub-17 da Águia do Vale, em 2009. Estava em jogo a sobrevivência no concorrido mundo da bola!

Graxinha superou todas as barreiras possíveis. Deixou a base do São José, em 2011, e partiu para o Náutico. No clube pernambucano voltou a ser Graciano, foi capitão da equipe sub-20 e atuou ao lado do lateral-esquerdo Douglas Santos, do Atlético e da Seleção Brasileira, e do meia Marcos Vinícius, do Cruzeiro. Marcos Vinícius, aliás, fez questão de lembrar do amigo quando perguntei fora dos microfones da sala de imprensa da Toca da Raposa II. “Você conhece o Graciano? Joguei com ele no Náutico! É muito amigo meu. Dei a ele uma camisa do Cruzeiro, inclusive. Manda um abraço pra ele!”.

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Na base do Náutico, Graxa jogou com Marcos Vinícius (e), hoje no Cruzeiro (arquivo pessoal)

Foi pelo Náutico seu primeiro jogo como profissional. Na vitória sobre o Porto, por 2 a 0, pelo Campeonato Pernambucano de 2012, o então jovem de 18 anos jogou todo o segundo tempo. O técnico Waldemar Lemos, irmão de Oswaldo de Oliveira, foi o responsável por dar a Graciano a oportunidade. Porém, com a demissão do comandante, que foi substituído por Alexandre Gallo, todos os atletas promovidos da base retornaram ao time sub-20.

No começo de 2013, Graciano trocou o Náutico pelo Bragantino, pelo qual firmou um contrato de três anos e herdou, em definitivo, o apelido do pai: Graxa. No interior de São Paulo foi onde conseguiu mais visibilidade na carreira. Fez amizade com Cesinha (ex-Atléico), Robertinho (ex-América), Geovanni (ex-Cruzeiro, América, Benfica, Barcelona, Manchester City, Hull City e Seleção Brasileira), entre outros. Um célebre momento ocorreu no empate por 2 a 2 com o Corinthians pelo Campeonato Paulista, no dia 24 de fevereiro, quando o meio-campista, acionado aos 29min do segundo tempo, fez jogo duro na marcação de Alexandre Pato, Paolo Guerrero e Elias, astros do Timão. A partida foi transmitida em rede nacional tanto pela TV Globo quanto pela Band. Graxa arrancou elogios do comentarista Neto e do apresentador Milton Neves, do programa Terceiro Tempo.

Ainda em 2013, o jogador teve uma breve passagem pelo União Barbarense, que disputou a Copa Paulista, retornando em seguida para o Bragantino. Na Série B, começou a ganhar espaço, mas um lance desleal manchou seu início de carreira: no jogo contra o Avaí, pela 32ª rodada da competição, Graxa entrou de sola no joelho do lateral-esquerdo Héracles, que rompeu os ligamentos e ficou afastado por mais de seis meses. Ao analisar o ocorrido, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) aplicou pena de 180 dias de suspensão. Assim, o volante perdeu todo o primeiro semestre de 2014, ano que poderia ser o de afirmação na carreira. “Aquela suspensão me atrapalhou e muito. Se não fosse ela, teria jogado mais vezes pelo Bragantino e, quem sabe, estaria numa situação muito boa hoje”, disse.

Concordo contigo, Graxa. Como jornalista esportivo, já ouvi relatos de jogadores, técnicos, preparadores, fisiologistas e médicos sobre a diferença entre ritmo de treino e jogo. Uma coisa é participar de um coletivo, que, em média, dura 40 minutos e por vezes é paralisado pelo treinador. A intensidade de uma partida de 90 minutos é completamente diferente. O desgaste físico é maior, a pressão psicológica também. Perder o embalo durante seis meses, ainda mais se tratando de um jovem de 20 anos, pode ser devastador.

Ao cumprir os intermináveis seis meses de gancho, Graxa retornou ao Bragantino no segundo semestre de 2014, já com o time montado e preparado para a Série B. As oportunidades foram escassas – quatro jogos – e o clube por pouco não foi rebaixado à Terceira Divisão (ficou em 16º, com 46 pontos).

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Volante em ação pelo Bragantino contra o Paraná, na Série B de 2014 (foto: Fábio Moraes)

Em 2015, a desastrosa campanha da equipe de Bragança Paulista no Estadual culminou com a rescisão de contrato de todos os jogadores. Do time que caiu para a Série A2, Graxa foi um dos poucos a serem mantidos na Série B, mas, no meio do ano, acertou seu desligamento do Massa Bruta. Já no segundo semestre foi contratado pelo Caldas, de Caldas Novas-GO, para a disputa da Terceira Divisão do Campeonato Goiano. Lá, o volante marcou seus primeiros gols como profissional e por algum tempo foi chamado de Rincón, por sugestão de um antigo empresário.

A boa passagem pelo Caldas, que subiu à Segunda Divisão do Goiano, rendeu a Graxa um contrato de cinco meses com o Clube Recreativo Atlético Catalano, o CRAC, da elite do estado. Na edição de 2016 do Goianão, Graxa disputou sete dos 15 jogos do Leão do Sul, que terminou a competição em oitavo lugar, com 15 pontos. Com ele em campo, o time venceu três vezes, empatou uma e perdeu três. O vínculo entre clube e jogador foi encerrado em 8 de maio.

Atualmente sem empresário, Graxa segue cuidando da forma física em Igarapé e à espera de uma oportunidade que lhe dê condições de alavancar a trajetória profissional.

Para algum clube/agente que estiver procurando um volante veloz, de muita força física e ágil na saída de bola, segue abaixo a lista com todas as informações da carreira do personagem desta pauta. Graxa tem potencial para crescer. É jovem, dedicado e carrega alguma experiência na carreira. Não há nada a perder. Vamos apostar?!

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Em 2016, Graxa disputou o Campeonato Goiano pelo CRAC (foto: Jurandir Silva)

GRACIANO JÚNIOR GONÇALVES (GRAXA)

Naturalidade: Contagem/MG
Altura: 1,78m
Peso: 72 kg
Posição: volante
Data de nascimento: 08/10/1993
Clubes: Atlético-MG (2004 a 2009), São José-SP (2009 a 2012), Náutico (2012), União Barbarense-SP (2013), Bragantino (2013 a 2015), Caldas-GO (2015) e CRAC-GO (2016)

LISTA DE JOGOS (COMO PROFISSIONAL)

2012 – NÁUTICO

13/03 – Porto-PE 0x2 Náutico – Campeonato Pernambucano – entrou no intervalo

TOTAL: 1 jogo e 1 vitória

2013 – BRAGANTINO

16/02 – São Caetano 1×2 Bragantino – Camp. Paulista – entrou aos 28 do 2ºT
24/02 – Bragantino 2×2 Corinthians – Camp. Paulista – entrou aos 29 do 2ºT (A)
02/03 – Bragantino 1×2 Atl. Sorocaba – Camp. Paulista – entrou aos 33 do 2ºT
16/03 – Bragantino 3×2 Penapolense – Camp. Paulista – entrou aos 34 do 1ºT
20/03 – Bragantino 2×2 Oeste – Camp. Paulista – substituído no intervalo (A)
08/10 – Ceará 5×3 Bragantino – Série B – entrou aos 19 do 1ºT
25/10 – Avaí 3×0 Bragantino – Série B – entrou aos 7 do 2ºT
08/11 – Bragantino 2×0 Atl. Goianiense – Série B – entrou aos 6 do 2ºT
23/11 – Paysandu 0x1 Bragantino – Série B – substituído aos 24 do 2ºT
30/11 – Bragantino 1×1 Figueirense – Série B – substituído aos 43 do 2ºT

TOTAL: 10 jogos, 4 vitórias, 3 empates e 3 derrotas.

2013 – UNIÃO BARBARENSE (EMPRÉSTIMO)

31/07 – União Barbarense 4×1 Paulista – Copa Paulista – jogou 90 minutos
10/08 – Rio Branco 1×0 União Barbarense – Copa Paulista – jogou 90 minutos
18/08 – Ituano 3×1 União Barbarense – Copa Paulista – jogou 90 minutos
28/08 – União Barbarense 0x2 Grêmio Osasco – Copa Paulista – jogou 90 minutos
31/08 – São Bento 2×0 União Barbarense – Copa Paulista – jogou os 90 minutos
04/09 – Paulista 4×0 União Barbarense – Copa Paulista – jogou os 90 minutos
15/09 – União Barbarense 2×1 Rio Branco – Copa Paulista – jogou os 90 minutos

TOTAL: 7 jogos, 2 vitórias e 5 derrotas

2014 – BRAGANTINO

18/10 – Bragantino 2X1 América-RN – Série B – substituído aos 15 do 2ºT
21/10 – Sampaio Corrêa 3×0 Bragantino – Série B – substituído aos 20 do 2ºT
28/10 – Joinville 1×0 Bragantino – Série B – substituído aos 37 do 2ºT
21/11 – Bragantino 1×1 Paraná Clube – Série B – substituído no intervalo

TOTAL: 4 jogos, 1 vitória, 1 empate e 2 derrotas

2015 – BRAGANTINO

31/01 – Bragantino 1×0 São Bernardo – Camp. Paulista – entrou aos 42 do 2ºT
07/02 – Mogi Mirim 2×1 Bragantino – Camp. Paulista – jogou os 90 minutos
11/02 – Bragantino 2×3 Red Bull Brasil – Camp. Paulista – saiu no intervalo (A)
28/02 – Bragantino 1×2 Portuguesa – Camp. Paulista – jogou os 90 minutos
16/04 – Bragantino 1×0 Lajeadense – Copa do Brasil – entrou aos 44 do 2ºT
09/05 – CRB 2×0 Bragantino – Série B – jogou os 90 minutos

TOTAL: 6 jogos, 2 vitórias e 4 derrotas

2015 – CALDAS-GO

29/08 – Caldas 5×0 Monte Cristo – 3ª Div. Camp. Goiano – entrou aos 31 do 2ºT (A)
07/09 – Morrinhos 0x1 Caldas – 3ª Div. Camp. Goiano – jogou os 90 minutos (A)
12/09 – Caldas 1×2 Bom Jesus – 3ª Div. Camp. Goiano – substituído aos 12 do 2ºT
16/09 – Aparecida 1×2 Caldas – 3ª Div. Camp. Goiano – substituído aos 34 do 2ºT (G)
19/09 – Bom Jesus 0x1 Caldas – 3ª Div. Camp. Goiano – jogou os 90 minutos
26/09 – Caldas 2×1 Aparecida – 3ª Div. Camp. Goiano – entrou aos 39 do 2ºT
30/09 – Caldas 2×0 Morrinhos – 3ª Div. Camp. Goiano – entrou no intervalo (G)
10/10 – Monte Cristo 0x5 Caldas – 3ª Div. Camp Goiano – substituído aos 18 do 2ºT
24/10 – Caldas 1×1 Inhúmas – 3ª Div. Camp. Goiano – substituído aos 20 do 2ºT (A)

TOTAL: 9 jogos, 7 vitórias, 1 empate e 1 derrota (2 gols marcados)

2016 – CRAC-GO

09/01 – CRAC 2×1 URT – amistoso – entrou no intervalo (G)
30/01 – Atlético-GO 2×0 CRAC – Camp. Goiano – substituído aos 27 do 2ºT (A)
24/02 – Goianésia 0x1 CRAC – Camp. Goiano – jogou os 90 minutos
28/02 – CRAC 0x0 Atlético-GO – Camp. Goiano – jogou os 90 minutos
06/03 – CRAC 3×1 Vila Nova-GO – Camp. Goiano – entrou no intervalo
13/03 – Anapolina 1×0 CRAC – Camp. Goiano – substituído aos 10 do 2ºT (A)
20/03 – CRAC 2×0 Trindade – Camp. Goiano – entrou no intervalo (A)
10/04 – Itumbiara 2×0 CRAC – Camp. Goiano – jogou os 90 minutos

TOTAL: 8 jogos, 4 vitórias, 1 empate e 3 derrotas (1 gol marcado)

JOGOS/GOLS POR CLUBES

Náutico: 1 jogo
União Barbarense: 7 jogos
Bragantino: 20 jogos
Caldas: 9 jogos/2 gols
CRAC: 8 jogos/1 gol

TOTAL: 45 jogos e 3 gols

Alguns técnicos com quem trabalhou: Mazola Júnior, Wagner Benazzi, Marcelo Veiga, Waldemar Lemos, Alexandre Gallo, Claudemir Peixoto, Júlio Sérgio

Assista ao vídeo com lances do jogador:

Fotos de Graxa:

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